Tio Otto

Tio Otto -quarta feira – 25 de agosto.

Ontem às 11:48h, já na cama,

recebi do Márcio a notícia: Primaaaaa papys se foi!!!

Meu tiu Otto, que completaria 95 anos no final de novembro, estava desde a semana passada no hospital, para receber cuidados paliativos para chegar nesse momento. Para ter algum “conforto” enquanto seu corpo ia encerrando todas as atividades. Como disse o outro primo, ele estava só esperando o Márcio chegar.

Meu primo Marcio, o filho mais novo, talvez o que viveu por mais tempo próximo desse pai que ele sempre quis tanto agradar, há anos morando em Ponta Grossa, tinha viajado em pequenas férias quando ele foi internado.

Meu tio foi um homem do seu tempo. Um homem reto. Um homem de família. Viveu conforme as regras, para a família. Sua forma de amar era cuidar e prover. Manter os filhos e até nós, os agregados. Eu, minha irmã e meus primos, sempre tínhamos em sua casa, abrigo e afeto.

Claro, no início, quando erámos todos pequenos, era minha tia que nos acolhia e estava próxima. Mas ele aceitava. E à sua forma, nos recebia e cuidava como um pai e nos estendia aquele afeto de homem de família, provedor. Era duro quando precisava.

Na praia, durante os 3 meses de cada verão, dos quais a maioria eu estava lá, vinha sempre ao final do dia, pois durante, estava em São Chico trabalhando. Foi dentista de várias gerações de homens, mulheres e crianças da cidade.

Para mim e minha irmã foi nosso pai substituto. Nas férias de julho que muitas vezes passei também em sua casa, enrabixada sempre, na minha prima mais velha, Sabrina, ele vinha à hora do almoço e depois de comer, tínhamos que nos comportar e diminuir o volume da algazarra enquanto ele fazia sua sexta.

Eu, sempre muito barulhenta e faladeira, volta e meia levava umas por estar atrapalhando seu sono. A tia nos dava as duras. Ele não dizia nada.

Nas festas de família, que eram sempre na casa da vó, onde morávamos minha mãe, meus irmãos e eu, vinha ele com sua enorme Chevrolet-Veraneio para Itajaí, com a trupe toda. E de vez em quando alguma galinha ou cabritinho, ainda vivos, para fazer o almoço da festa.

Quando a festa era em Florianópolis, na casa do Tio Luciano, viajávamos juntos naquela imensa caminhonete, que era quase um ônibus para nós. Ele passava em Itajaí peqgava a vó, a mãe, eu, Diná e Eduardo e lá nos íamos, todos juntos. Na frente ele guiando, a Tia Aparecida e a mãe. No Banco de trás a vó, o Hugo, a Sabrina, eu, e no bagageiro em cima de sacolas ou banquinhos, Cyro, Diná, Alexandre, Márcio e Eduardo (o Formiga, meu irmão mais novo, que quando bem pequenininho ia no colo, da mãe, da vó, ou de uma de nós). Todos ouvindo as fitas kassete com Demis Russeau, Abba, Beatles e outros sucessos da época.

No Natal, a chegada deles era, para mim, a mais esperada, muito por causa da Sabrina. A vó dizia que tínhamos que arrumar tudo por que os Cabrais iam chegar.E eles descobriam tudo. E era aquela festa mesmo.

Eles chegavam trazendo aquela montoeira de pacotes de presentes que eram todos colocados na sala junto à árvore de natal e do presépio que tinham sido montados na véspera, quando finalmente a mãe tinha alguma folga dos colégios onde trabalhava. A casa toda cheirando os biscoitos que tínhamos passado semanas ajudando a vó a fazer. As roscas natalinas, todas aquelas comidas deliciosas. Já o almoço do dia 24 era festa.

A tardinha, depois de banhos, gritos e ameaças (porque sempre havia brigas e aprontadas de toda aquela pirralhada), saíamos todos na Chalana – nome da Veraneio. Tio Otto levava a gente para fazer um “giro”- como diria o vô Corbetta, por Itajaí inteira, vendo as casas enfeitadas com as luzes de Natal, muitas com janelas e portas abertas deixando ver os coloridos Pinheirinhos, as decorações. Ele fazendo comentários discretos e ironicamente engraçados de algumas mais enfeitadas com exageros kitsch!

Depois de rodar toda a cidade, literalmente, estacionava na frente da casa e ficávamos por ali, na calçada, brincando e jogando, ele junto, à espera do som da campainha/sineta do Papai Noel, que tocava avisando que ele já tinha passado e poderíamos entrar cantando Otanembaum e Noite Feliz para depois podermos abrir os presentes.

Como ele era de família Luterana, não ia a missa, como todos nós éramos obrigados, sempre. Eu admirava muito aquilo. Até o invejava. Não pela missa em si, que até gostava daquele ritual, fórmulas e símbolos. Mas por ver a sua fidelidade à sua forma de credo, ou falta de. Ele as vezes ia, levava-nos e ficava à porta da igreja nos esperando sair. Ele sempre foi fiel. À sua maneira. Sua religião era outra. Professava na verdade, muitas fés.

Uma delas, era sem dúvida sua profissão. Exerceu religiosamente todos os anos que deveu, precisou, e se realizou. Depois que se aposentou, mudou-se para Curitiba, para viver próximo dos amigos de faculdade e de outra quase religião sua. O turfe.

Amava ver os cavalos, ir ao Jockey, fazer sua fezinha. Sempre com religiosa parcimônia, extrema dignidade e comedimento. Mesmo depois, quando não mais quase enxergava, seguia os Grande Prêmios e as corridas. Assinava o canal de Turfe e seguia pela TV e rádio. Conhecia os grandes nomes do Brasil inteiro.

E sua fé cotidiana era também professada no Jogo do Bicho. Ele que me ensinou a apostar. No terno seco, no milhar a seco, na centena, na dezena, no grupo. Como eu sonhava muito e falava mais ainda ele sempre me ouvia e dava palpites. Sonhou isso? Joga na cobra, esse número é o jacaré. Tem que jogar 3 dias seguidos. Num deles dá. Cada sonho vale 3 dias sempre. Até ganhou com sonho meu. Chegou a ganhar uma boa quantia algumas vezes. Nunca fazia jogo grande, ousado sim. Não ia ficar rico, mas não ia ficar pobre jogando. Sua grande fé era feita de pequenas apostas. Fé do dia-a-dia mesmo, pequenos bilhetes.

Sempre gostou muito de cachorros também. Sempre foram amigos. Teve vários e lembro especialmente do Quick, um enorme pastor alemão, de quem eu gostava muito e as vezes tinha medo.

Depois de aposentado quando ainda tinha uma visão considerável, nos meses de praia, andava por Ubatuba toda. Fiscalizando as obras das casas que iam crescendo ao redor da sua. Conhecia quase todo mundo ali nas redondezas. Os que não, ficava conhecendo logo. Dava palpites. A vila cresceu sob seus olhos.

Há já alguns anos, não enxergava praticamente mais nada. Mas nunca se dava por achado. Tinha seus métodos. Que nem sempre funcionavam mas manteve enquanto pode. Grande dignidade. Quem foi rei, nunca perde a majestade, dizia a vó Ignes. Algumas vezes descemos para Santa Catarina no meu carro. Eu guiando. Ele ia de co-piloto dando conta da estrada. E mesmo quando sentava atrás, queria dar conta e palpite de tudo o que se passava.

Com o passar dos anos sua visão externa piorou cada vez mais, voltou-se para dentro, uma síndrome não rara dessa mistura de idade com cegueira de longa data. Via formiguinhas e pequeníssimos bichinhos. Por tudo. Cismava. Deixava todo mundo quase louco, a tia especialmente. Que nunca quis contrária-lo cabal e diretamente. Contemporizava.

Ele foi fiel à vida até o último minuto. Só esperou o Márcio chegar e partiu ao encontro do Cyro, o filho que se foi tão prematuramente há anos atrás. Devem estar já preparando a festa no Prado Velho. Turfe de Gala, pompa de Grande Prêmio. Seus cavalos serão vencedores hoje. Dobradinha Raposo. O Cyro deve estar feliz. Nós guardamos a saudade e as lembranças. Penso na festa lá. Fica bem tio Otto. Meu pai de presente.

CRONIC-ACTA DO CAFÉ DIGITAL

Ok, um preâmbulo é necessário. Mais de um ano a deriva e sem nada escrever ou publicar. E muita água rolou por todas as pontes e riachos. “Um homem nunca se banha num mesmo rio duas vezes” mas a história se repete.

O ano passou célere e novamente as ruas ficaram brancas, nem tanto esse ano, de fechamento de década, ou início de era. E tudo se transformou. Veio a Pandemia. Não a terceira guerra. O mundo se movimenta em pequenos caos. Ninguém sabe ainda realmente nada, mas muitos tem muito a dizer. Muita culpa imputada. Em fim. A gente fica em casa e a vida anda. E há que mudá-la. Transformá-la.

Mudar para nada mudar. Ou para melhorar. Ou para tentar. Assim foi que acabei aqui. No Café Digital.

Primeiro fui convidada para uma Live, falando do “Amor (e Sexualidade) em tempos de Covid”, com licença do Poeta. Foi interessante. E uma coisa leva à outra, acabei num grupo de mulheres empreendedoras. E que mulheres! E no meio delas todas, várias pérolas, ou pedras preciosas. Algumas de peso. Cheias de energia cinética concentrada, idéias criativas e poderosas, estórias de vidas cheias de histórias.

E aí, ontem veio o convite extemporâneo.

Há que se clarear que tudo acontece no Brasil, 5 horas atrás do meu horário aqui. Então o que lá é fim de tarde, pra mim é fim de noite. E o convite era para um Café Digital, às 11 da noite. Normalmente ele acontece no final da noite de sexta, para mim.

Esse, meio que foi provocado por um vídeo de Lília Cabral e sua belíssima interpretação do poema Nota de Agradecimento do Nilton Moreno, que gerou o lançamento no grupo da pergunta: “O quê” ou “a quem” você manda tua nota de agradecimento por te ajudar, de alguma forma, a passar por esses 3 meses de desafios?

E mais ou menos de forma esperada, porque sole ser assim, a resposta foi tímida.

Então a Dona do Café lançou o convite: Que tal fazermos uma paradinha pra um Café?

E há que se saber que essa Host, não é café pequeno. E o vício é provocar a Criatividade. Além do que, vem do mundo da Educação. Ou seja, Expresso, Capuccino ou Pingado, garantidos de um bom papo.

E lá fomos. Um grupo de mulheres empreendedoras, com diferentes back grounds, com um lastro de vida por trás. Cinco gatos pingados, transbordando de energia, idéias e vida.

Começamos falando da situação, de todos e de cada uma. E acabamos na poesia, na história. E quantas histórias!

Visitamos a Universidade, contatmo-nos causos, enredamos autores. Uma estória recém vivida trouxe à memória Saint Exupèry e Richard Bach. “Longe é um lugar que não existe”, a internet dá conta disso. A Criatividade é a inteligencia prática. Pode não haver saída honrosa, mas sempre há uma saída, a necessidade é o estupím e o alimento da Criatividade.

E há coisas que não há dinheiro que pague. Dinheiro sozinho não traz felicidade, mas sem dinheiro não se vive. Há que “dar a Cesar o que é de Cesar” e ter coragem para saber se conhecer. Dinheiro não é pecado, gostar dele não é proibido, mas uma coisa é dinheiro e outra é valor. E daí que por conta de um e outro, falamos da coragem de se exercitar, e se olhar e se reconhecer, e não ter medo de ser. Quem se é.

E assim falamos da coragem, de se lançar, de colocar no papel, de dizer o que se pensa, e chegamos em Helena Morley e Minha Vida de Menina, ou de como o diário despretensioso de uma menina saltou para as prateleiras das livrarias pelo desejo da avó de mostrar às netas que há muitos jeitos de ser feliz e saber olhar a vida, namorá-la e Encantá-la as vezes faz você conseguir enxergar a felicidade no simples, no pouco.

E então namoramos a memória, e com ela visitamos inclusive lugares ou tempos escuros. Passeamos no medo, nas experiências difíceis e até traumáticas onde saber respirar pode ser fundamental.

E não sei de todas, mas eu saí do café com a sensação que se sai de alguns sonhos, de alguém que entrou numa biblioteca e encontrou os personagens das histórias e aprendeu com eles que há mais de uma vida possível, e a Literatura, a Memória e a Criatividade são a chave para se sair ou entrar nela.

“Old loves die hard”

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Janeiro acabou. Passou quase todo branco e lindo. Foi delicadamente entrando na engrenagem da vida que segue. No mundo todo, os efeitos do “global warming” assustando, aborrecendo e até matando pessoas com tragédias massivas ou individuais. Enquanto isso as autoridades nas diversas partes do mundo insistem eu suas idiossincrasias pelo poder e lucro desconectados das necessidades reais da humanidade. Que de sua parte também caminha aleatoriamente “a passo de formiga e sem vontade” e também, sem nenhum senso de direção.

As grandes decisões ou mesmo as pequenas, tomadas por cada um de nós, em listas ou pequenas notas, ao cair da cortina do ano passado, vão entrando nas engrenagens da vida ou sendo apagadas nas areias varridas pelo mar. Ou mesmo afogadas, soterrados, explodidas a depender de onde nosso destino nos colocou nesse palco giratório no universo.

Seguidas vezes, em situações no metrô ou caminhando nas ruas cobertas pela neve, fui acometida de momentos de doce inspiração, onde temas e textos se me apresentaram sedutores convidando-me a registrá-los. Como na roda da vida, por uma razão ou outra, deixei-os seguirem, esvairem-se. Hoje recebi, num de meus periódicos eletrônicos um texto de uma escritora que sigo, que me fisgou no título, encantou na narrativa e fez-me pensar e lembrar da minha própria história de amor adolescente.

“Why I still love my first love”, de Glenna Gill, foi publicado em 15/08/2018 em “P.S. I love you” uma sessão especial de “Médium Daily Digest” uma plataforma para publicação de autores independentes de todos os calibres, que sigo. E essa plataforma postou para mim hoje em textos sugeridos.

A história de Glenn e Jimmy é simples e tocante. Com pequenas notas tristes e trágicas que ela mistura perfeitamente num texto fluido e saboroso,que me fez realmente degustar a beleza da vida normal do dia-a-dia. Bem essa coisa das pequenas tragédias e doces surpresas da vida real. E me fez também remeter a este episódio na minha vida.

Acho que já mencionei anteriormente em algum texto, que mesmo de criança eu sempre me sentia mais velha do que realmente era. Achava que tinha que ser muito responsável e focada em minha vida futura, naquilo que eu queria ser. Médica, bem sucedida, independente. Sempre achava que a vida corria muito rápido e que eu perdia muito tempo esperando para entrar nela de verdade e realizar coisas importantes. De forma diametralmente oposta a essa intenção pragmática e urgente, eu me entregava lascivamente a horas e horas de leitura de romances e contos de fadas, poemas, contos de ficção científica e fantasias as mais diversas. Assim que, meus primeiros amores foram absolutamente platônicos e imaginários. Alguns até em seus objetos. Outros não. Eram dirigidos a alguns dos meus pares. Mas todas as suas histórias, dores e delícias eram vividas apenas na minha cabeça.

O meu primeiro namoro, que existiu fora da minha imaginação foi como um ensaio de uma peça de teatro de escola. Eu estava encantada com o meu papel. Eu tinha 15 anos e queria ser igual às minhas amigas. E namorei aquele menino que parecia perfeito para o papel principal do apaixonado. Mas minha atuação foi tão pífia quanto a minha capacidade de realmente entrar no sentimento.

Então veio C. Éramos amigos, quase irmãos. Passávamos muito tempo juntos. Estudávamos juntos. E naquele ano descobrimos que tínhamos mais em comum. Pra mim foi como escorregar para dentro dos mais lindos livros e histórias de amor. Com todas as delícias da parte concreta. As borboletas na barriga, que eram contraparte de reais e deliciosos beijos apaixonados. Os disparos de coração que acompanhavam rítmica ou descompassadamente, nossas danças abraçados nas festinhas de garagem. Nossas tardes languidas na rede da varanda de casa. Nossos passeios loucos, de bicicleta ou a pé pelas praias próximas. Nossas tardes no pátio de jogos do colégio. Nossas experiências malucas com rojões de 500 e sapos amarrados em latas de leite ninho. Nossos papos super sérios sobre o que faríamos no próximo ano quando iríamos morar fora, na “cidade grande” e fazer nosso ano preparativo para o vestibular. Escolas diferentes. Eu, me preparando para definitivamente agarrar minha vida e ir ser aquilo que eu sempre quis: médica. Ele estava lá a me escutar quando chegava do estágio que fui fazer no hospital local, na função de atendente de enfermagem. Também quando descobri a “outra família” do meu pai. Aliás esteve junto em quase todos os meus trabalhos detetivescos para achar os paradeiros do meu pai, que sempre sumia no mundo e nunca foi direito, meu pai.

C. tinha uma família certinha e eu uma família maluca, desajustada dos modelos da época. E desde o tempo em que éramos só amigos, ele era um super apoio para mim. Como um irmão mais velho. Eu realmente estava apaixonada e o sentia da mesma forma. Formávamos um casal estranho. Ele era enorme, forte, atlético. Eu era uma baixinha um pouco obcecada por livros.

Logicamente, não tenho hoje mais a mínima ideia, se para ele foi tudo aquilo que foi pra mim. Naquele tempo eu achava que sim. O nosso namoro durou um ano. E se desmanchou quando separamos as escolas. Quando fomos pra nossas vidas. Eu continuei muito apaixonada por ele por muito tempo. no primeiro ano de faculdade tinha a imensa determinação de nunca mais me apaixonar. Especialmente por ninguém da mesma sala. Do mesmo curso. Ele ainda era minha referência em termos de amor e dor.

Minha turma na faculdade era 90% masculina. Éramos raras meninas. E logicamente rolavam festas e encontros e namoros,  os mais diversos. E no início,  eu jurava teimosamente para mim mesma que não iria me envolver com ninguém. Voltei por um tempo às minhas convicções platônicas.

Felizmente, ou não, a natureza é, ou foi, mais forte que meus votos de abstinência e teimosia. Voltei a me apaixonar inúmeras vezes. Vivi histórias as mais variadas. Tive vários relacionamentos inocentes. Outros grandes amores. Um filho. Relacionamentos à distância. Romances tórridos. E hoje tenho um relacionamento de amor estável e maduro. Estou casada e feliz. Moro fora do meu país. Fui a médica que queria e me realizei muitíssimo em minha profissão. No momento estou em uma espécie de sabático e numa jornada de autoconhecimento. Não sei bem ainda o que vou ser daqui pra diante. Aprendiz sempre. De tudo.

Encontrei varias vezes com C. nestes anos. Sempre é bom. Sempre que nos abraçamos sinto aquele amor fraterno que sempre tivemos, nos envolver de forma aconchegante.

Há 10 anos atrás tivemos um grande encontro de nossa turma de colégio. Alguns de nós não se viam há mais de trinta anos. E foi comovente ver o quanto dos laços de carinho e fraternidade entre todos, ainda persistia. Ou talvez mesmo, pela distância, tinham se estreitado e assumiam um brilho renovado. Muitos permanecem muito amigos e próximos.

Depois desse grande encontro, outros aconteceram. E sempre é bom. Como sou uma das que se mudou definitivamente e nunca voltou a morar na mesma cidade, meu único contato com eles, ou com a grande maioria, hoje, é pelo grupo de WhatsApp e por esses encontros esporádicos, aos quais nem sempre posso ir.

Mas tenho no grupo, minhas amigas mais próximas também, com quem os contatos são de alguma forma mais frequentes. Também elas têm suas história de primeiro amor dentro do grupo. E conversamos e trocamos nossas ideias sobre a importância destas histórias nas nossas vidas hoje. Talvez porque estejamos tão distantes valorizamos extremamente o sentido que esses amores tiveram em nossas vidas. Nenhuma de nós está ainda com nosso “Highschool Sweeatheart”, embora algumas estejam em relacionamentos de toda a vida.

C. teve mais de um casamento e filhos, e hoje está casado, e ao que parece bem feliz, com uma moça linda e simpática com quem não tenho nenhuma intimidade, mas que me desperta um grande afeto, talvez especial, por ser a companheira dele. Faz parte do carinho que sinto por ele. Quando o vejo e encontro, esses laços de afeto são absolutamente claros para mim. E são exatamente o que são. Um especial sentimento de amor fraterno. É muito bom encontrar todos esses amigos e com C. isso é especialmente bom. E não tem nenhum sentimento do tipo: ah como eu queria estar com você. Nenhum ressentimento ou lamento de termos vidas diferentes hoje,  e não estarmos um na vida do outro de maneira mais próxima. Nada disso.

Mas há uma coisa que muito pouco e para raras pessoas falei, uma delas meu ex psicanalista, no Brasil.

Desde sempre, cada vez que minha vida está para dar uma guinada de qualquer tipo, em relações amorosas ou de trabalho, em situações desafiantes ou jubilosas, em grandes decisões a serem tomadas, ou na vigência de algum momento emocional especial, eu sonho com C.

Não o C. hodierno, maduro, casado, feliz. O meu C. dos 15 anos. O meu primeiro amor. Aquele menino grandão que amei. Nos sonhos às vezes estamos juntos, às vezes estamos conversando sobre voltar a estar juntos. E cada um a seu tempo argumenta sobre a impossibilidade, sobre a questão do tempo que passou e de como  não somos mais os mesmos. Algumas vezes estamos em situações bem íntimas que jamais aconteceram na realidade.

Nunca o sonho é em relação ao que está acontecendo na realidade. Também não tem relação aparente com o nível de stress ou felicidade do momento. Como a maioria dos sonhos é inusitado. É só um sonho. Às vezes nem me dou conta que estou num momento de transformação e mudança. Só a posteriori. Em todos esses sonhos no entanto, o predominante é o sentimento de amor e apoio. Como um abraço forte e carinhoso. E quando acordo a sensação é sempre boa, aconchegante e asseguradora.

Com o passar do tempo comecei a me acostumar a ver os sonhos como um sinal de que “no tempo acordado de viver” estou passando ou por passar por alguma experiência especial. Também me acostumei a ver o C. do sonho, como uma parte muito importante e boa do meu psiquismo. Da minha identidade – do meu eu interno. Uma parte forte e cuidadora. Sempre a me lembrar de quanto o amor é a parte mais importante da vida. De quanto o amor próprio é essencial. De quanto nossa Alma ou Espírito é atemporal. De quanto a pulsão da vida é forte e auto alimentada. E de quanto ela se confunde com o que chamamos de amor e buscamos infinitamente no outro.

Onírico

 

 

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Foi ontem. Eu não acordei. Fique pairando naquele espaço entre o sono e o tempo acordado, envolvida num casulo da mais aconchegante sensação de algo deliciosamente importante acontecendo. Como se estivesse em alguma fonte de extremo amor e conforto abraçada.

Nunca fui de dormir muito. Mas de sonhar sim. Todos os tipos de sonhos. As vezes coloridos as vezes excepcionalmente coloridos. Outros absolutamente caóticos. Alguns hiperrealistas.

Muitos inverossímeis. Outros premonitórios. Às vezes no sonho, sei que estou sonhando. Noutras tenho deja vù, e me digo: já sonhei isso antes.

Algumas noites ou madrugadas me acordo no meio de um sonho bom e volto a dormir exclusivamente para dar proceguimento no mesmo sonho.

 

Há aqueles sonhos extremamente físicos. Desses muitos são orgasmáticos. E nada se compara a um orgasmo no sonho.

E há as vezes, extremamente raras, de sonhos como o de ontem, em que a sensação é indescritível. Mas é tão intensa que permanece na memória do corpo inteiro. Custa muito a se esvanecer.  E fica aquela dúvida do que, enfim se tratou.

E como se estivesse numa outra dimensão. Numa outra esfera.

Imagino que seja a sensação do poeta. Naquele momento tenho a impressão que apenas em descrever o sentimento teria em mãos uma obra prima.

Ou do louco. Você experimenta aquele colo cósmico e não quer sair dele. Sei que é para raros. Sou feliz porque conto com vários destes no meu curriculum de sonhadora. Mas imagino que a busca desta sensação possa levar o ser à drogadicção ou à irremediável loucura. Adoraria não retornar. Ficar naquela bolha flutuando infinitamente.

A constante Vida mutante

 

No final da tarde meu spot se transforma. “O melhor lugar do mundo é aqui e agora”. O céu ficou todo limpinho. As nuvens se afastaram para os cantos e são pacíficas. Parecem aproveitar a luz do sol que se diverte espalhando sombras ao redor das árvores, dos arbustos e das pessoas. As águas do rio passam céleres brilhando douradas.

Dois flamingos e um unicórnio chegam trazendo mais espécies da variada fauna deste lugar.

Lá para os cantos a grande mesa da festa que já havia quando cheguei, parece ir se esvaziando. Há homens mulheres e crianças.

Os jovens que vão chegando com suas bóias coloridas e suas cervejas, vão se juntando em grupos diversos. Alguns jogam freesbes ou bolas. Outros conversam alto e animadamente. O sol ainda os recebe e aquece. À mim ele só lança alguns tímidos raios tépidos através dos galhos da pequena ilha de árvores e arbustos que fazem como que um portal do lado de cá da clareira. Me vou. Agora é a hora deles. Das suas festas.

E o tempo também se foi. Passando tão célere como as águas. Nunca o mesmo rio nunca, o mesmo sol ou a chuva, nunca a mesma vida, a mesma estação ou eu mesma.

O verão a longo mudou seu hemisfério e levou suas cores quentes. O outono esse senhor de belas cores decadentes ainda não terminou de espalhar suas filhas. Brinca ainda de dourar as folhas que insistem em se agarrar e não deixar nuas algumas árvores, convivas tardias dessa festa extemporânea da mudança climática do mundo.

Já um ano se completou e outro vai a metade e a vida nova que ensaiei ainda não encontra total expressão nessa velha nova língua. Essa língua que um dia cheguei a sonhar, mas não alcanço falar.

 

… … … …

 

Outro ano começa todo vestido de branco com se deve, a que a paz e alegria nos venham colorir.

O frio não mais me assusta. A tudo se acomoda a vida humana, tristemente até às desumanidades.

Janeiro já vai rápido rumo à metade. O parque é um tapete de contos de fadas. Pela cidade as decorações natalinas que ainda não se foram cobriram-se de brancos lençóis. As árvores parecem adornadas de brancos berloques. Tudo é lindo como num sonho.

O vento quando sacode os galhos mais leves cria cortinas de cristais que na noite brilham em milhares de pontos iluminados pelas feéricas lâmpadas dos postes que se curvam deitando estalactites.

27 de julho meu dia dos Pais

 

 

 

Sexta feira, o dia do super eclipse, que só voltará a acontecer daqui há 105 anos, com Marte absolutamente próximo da Terra, de uma maneira que só estará novamente daqui há não sei quantos anos, foi o aniversário dela. Minha mãe.

Segundo aniversário dela desde que vim para cá. Segundo aniversário que passo concretamente a um oceano de distância dela.

Claro que liguei e lhe dei os parabéns e nos falamos um pouquinho. Ela me pareceu bem feliz, tranquila, satisfeita. Há pouco mais de um ano que está morando com minha irmã, que como uma quase mãe ou irmã mais velha está cuidando dela.

Antes mesmo de sexta feira comecei a preparar este post. Eu o queria muito especial. Já tinha pedido à minha irmã que procurasse fotos e andei fuçando nas que eu tinha. Escolhi várias que representam fases da vida dela que gosto de olhar.

As primeiras sete fotos são dela sendo o que era, ou o que queria ser. Uma menina doce e sonhadora formada no Normal, no Colégio das Freiras,  como todas as outras moças inteligentes  em sua cidade, que queria encontrar um bom moço para casar,  criar filhos e constituir família.

Ela era uma mulher do seu tempo. Ou , como disse, queria ser.  Até que a vida aconteceu e virou tudo.

A oitava foto, pequenina ali no canto, é ela recebendo o grau de licenciatura em Matemática e Física pela Universidade Federal de Santa Catarina. Acho que ela se formou numa das primeiras, se não, a primeira turma do Curso da UFSC. Imagino que não fossem muitas mulheres na sala. Mas ela tinha algumas amigas.

Lembro algumas coisas dessa época. Morávamos em Floripa, naquele apartamento da João Pinto, bem no centro. Ela estava sempre trabalhando. Mesmo quando estava em casa. Sentáva-se à máquina de costura e fazia vestidos e biquinis e pantalonas. Costurava para nós e para suas clientes. Saía muito. Ia à escola, e dava algumas aulas no Colégio das Freiras de lá.

Nessa época morávamos todos juntos. Ela, meu pai, minha irmã, eu e Neuza, a nossa empregada. Que fazia as coisas de casa.  Limpava a casa e cuidava de nós quando minha mãe saía. E eu não gostava dela. Porque sentia que ela não gostava de mim. Ou porque era ela sempre ali, onde eu queria minha mãe.

Mesmo assim, minha mãe era a presença na casa. Mesmo quando não estava. Ela ia e vinha o tempo inteiro e era sempre ela que estava ali para tudo. Resolvia tudo.

As vezes à noite, quando meu pai ainda não tinha chegado, eu ia para a cama dela e ficava deitadinha do seu lado enquanto ela estudava, sentada encostada aos travesseiros.Eu tinha uns 4 ou 5 anos e ali aprendi a gostar de matemática e trigonometria. Escutava ela estudar em voz alta enquanto enunciava os teoremas e resolvia as equações, enunciava as fómulas: seno, co seno, seno a co seno b. Secante, co secante. O quadrado da hipotenusa. Outro mundo mágico que se abria para mim e me acompanhava no sonho. Ela brigava muito com estas fórmulas, mas eu sentia que não era a sério. Ela brigava consigo mesma pela dificuldade que tinha. Mas eu acho que mesmo assim ela gostava muito daquilo. Hoje penso que aquelas constantes derivadas a mantinham segura, de que alguma ordem havia de haver no universo. Mesmo seu cotidiano sendo tão cheio de inconstâncias.

O Bacharelado ela deixou de lado. Era com menor tempo. Ela precisava da licenciatura plena,  para trabalhar, para ser professora. Voltou para sua cidade natal,  como uma mulher desquitada, fato um tantinho escandaloso para o lugar na época, continuou seu sonho, enviezado, de criar seus filhos.

Sem premeditar, virou “avant gard” de uma geração que tinha outros planos para suas sonhadoras. Me pergunto quanta consciência desse papel, ela teve ou tem ainda hoje.

Sei que ela passou tempos muito difíceis em toda sua vida de mulher adulta. Desde que casou. O sonho de princesa borralheira para ela não deu certo. O príncipe dela virou sapo muito rápido. Ou pior. Ela viveu pesadelos. Eu sei disso. Antes de voltar para a casa de seus pais, onde estávamos nós, suas filhas, ela ficou dois anos, tentando acertar os ponteiros com meu pai, terminando seus estudos, e pelo que ela conta foi um período terrivel na sua vida. Que hoje ela lembra com muitas mágoas. E eu fico muito triste por isso.

Eu queria muito que ela fosse capaz, e se eu pudesse, dar-lhe-ia isso de presente, de lembrar desse tempo, só o orgulho da garra que teve. De todas as terríveis batalhas que lutou e venceu. De todo o exemplo de coragem e força que ela deu para nós (seus filhos) e para tantas outras pessoas. Seus alunos e alunas, seus amigos e toda uma cidade pequena e provinciana que presenciou nela uma das primeiras exemplares dessa nova classe de mulher que surgia.

Fala-se tanto hoje em feminismo, em empoderamento, em novas formas de relacionamento e família. Sei que foi contra a sua vontate. Mas ela viveu tudo isso e muito mais quando, no Brasil e especialmente nas pequenas cidades como a nossa, isso ainda era muito tabu, muita ficção,  era apenas “pequenas notícias e assunto de revistas escassas”, que traziam novidades das coisas que iam pelo mundo distante, o tal Primeiro Mundo.

Ela foi, mesmo não querendo, esse modelo para mim. Ela foi a um tempo, nossa mãe, irmã, heroína, amiga e Pai. Então acho que faz sentido, que esse texto que iniciei para o seu aniversário tenha se concretizado hoje. No dia dos Pais.

Feliz dia dos Pais, Mãe.

Aprendendo

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Antes de morarmos no apartamento da João Pinto, no centro, onde o mar vinha lamber as calçadas e onde hoje a cidade estendeu seu espaço,morávamos na Agronomica, numa casinha com um pequeno quintal e um ranchinho no fundo do terreno que dava por cima deste mesmo mar. Ali também hoje é aterro do qual faz parte a Beira Mar Norte.

Naquele tempo, meu pai mergulhava da janela do ranchinho no mar da baia. Eu lembro muito pouca coisa dessa época. Mas lembro que achava aquilo o máximo. Eu queria poder fazer o mesmo. E brincando na pequena varanda ou pórtico de trás da casa saltava da muradinha, fazendo de conta que mergulhava do alto nas ondas. Um dia caí e quase quebrei o braço. Lembro que foi uma choradeira danada.

Outra coisa que lembro dessa época é de termos tido uma vizinha um pouco alemã que tinha um filho quase bebê mas um pouquinho mais velho que minha irmã. Sei que ele chorava sempre chamando pelo seu wut wut, eu quis saber o que era isso. Era o porquinho. Ele chamava pelo seu porquinho e o chamava em alemão. Já ali fiquei muito impressionada com aquele menino tão pequenino que conhecia uma outra língua.

Eu ficava sempre muito impressionada com as pessoas, de todas as idades, que faziam coisas que eu achava interessantes e legais. Eu queria poder fazer todas aquelas coisas. Falar linguas diferentes, ler livros e qualquer coisa que tivesse letras. Aplicar injeções e tratar as pessoas, examiná-las e saber dizer o que elas tinham ou não (como eu tinha visto o moço do hospital, vestido de branco, examinar meu braço e dizer que não estava quebrado, só torcido, o quê para uma criança da minha idade era a mesma coisa). E queria ter coragem e capacidade de saltar do alto e mergulhar no mar e sair nadando, como meu pai fazia.

Naquela época íamos à praia na baía mesmo. Era limpinho e as águas bem tranquilas. Meu pai saía nadando sem parar até ficar pequenininho lá no fundo. Eu queria muito ir atrás. Mas claro, não sabia como. E era só passar a água da linha da cintura pra minha mãe começar a ter chiliques me chamando pra beira da praia. Então ele se oferecia pra me levar junto com ele. Na garupa dele. Mas eu não queria. Tinha medo disso. Daí ele pegava minha irmãzinha que era pouco mais um bebê e ela ia toda feliz lá pro fundo com ele. E eu ficava emburrada na beirinha ao lado da minha mãe.

Sempre tive essa mania de querer fazer as coisas sozinha, ou por mim mesma. Claro, com meu pai tinha uma insegurança devida a outros fatores, que um dia conto em outra história. Ou não. Mas sei que sempre fui assim metidinha a saber e querer fazer de tudo sozinha, sem aceitar ajuda. Era extremamente teimosa. E claro, perdi muito com isso. A vida toda. Levou muito tempo para eu começar a me tocar que se me abrisse, confiasse e aceitasse ajuda, muita coisa poderia ser mais fácil. Muito tempo mesmo.

Ainda não sei

Quando eu era pequena e morávamos em Florianópolis, num pequeno edifício bem no centro, em que o mar vinha lamber a rua de trás e podia ser visto da marquise e da beira da calçada, respingando a gente nos dias de vento sul, eu tinha um vizinhozinho, que era um pouco mais velho ou novo que minha irmã, já não lembro, e tinha metade da minha idade. Eu tinha quatro anos e me achava já meio velha para isso ou para aquilo.

Ele era um menininho chorão e chatinho, nem sei mais seu nome, se é que um dia o soube. Ele vinha, trazido pela babá, sentar nos degraus da escada quase em frente a nossa porta. E ele fazia uma coisa que me deixava a um só tempo, admirada, fula da vida, envergonhada e invejosa. Ele sabia de cor todos os estados e capitais do Brasil de então.

Era o ano de 65, eu acho, 1965: século passado. Ele não falava corretamente e não sabia nem contar até 2. Mas recitava aquilo de frente para trás, sempre que alguém pedia. Se exibia com aquilo, feito um papagainho.

Meu pai trabalhava como jornalista ou radialista ou os dois, não sei bem. Ele quase nunca estava em casa e nas horas de almoço e janta devíamos ir para baixo da mesa para chamá-lo para que se apressasse. Claro que isso nunca funcionou e deixou em mim um terrível hábito de estar sempre atrasada, mas isso é outra história.

Quando ele estava em casa lia ininterruptamente pequenos livros de bolso com histórias de Farwest. Esses livros só tinham letras. Milhares de formiguinhas pretas pelas quais ele passava os olhos e desatava a rir esporadicamente. Eu observava aquele movimento e atitude e depois imitava-o na frente do espelho tentando reproduzir seu movimento de olhos e suas caras e fingindo entender o significado daquelas coisinhas pretas. Deixava todo mundo louco com perguntas sobre as letras, a com b dá o quê? P com r faz como? Era obcecada.

Tínhamos na sala uma grande biblioteca cheia de belos livros de capa dura com lombadas vermelhas, verdes, azuis e douradas. Minha mãe lia esses livros. Com mais elegância. Alguns deles tinham figuras lindíssimas, eu adorava. Mas ainda assim eram um mistério para mim. Eu os namorava e folheava ávida por ser capaz de decifrá-los.

Eu tinha meus brinquedos favoritos. Um kit de médico, com maletinha, estetoscópio, caixinha de comprimidos, curativos e injeção. Algumas bonecas que viviam pintadas de vermelho e esparadrapadas, ou enfaixadas com tiras de pano; e uma porção de livrinhos com figuras coloridas que nem de longe eram tão interessantes como os que meus pais liam. Mas tinham letras grandes e mais fáceis de reconhecer. Eu preferia os outros, incompreensíveis, mas amava-os também.

O primeiro que consegui ler sozinha chamava-se A Galinha Ruiva. E embora estivesse extasiada com a idéia de entender aqueles sinaizinhos, fiquei um pouco decepcionada com a história, bem menos interessante das que eu mesma tinha inventado e também daquela que minha mãe tinha lido. Ela emprestava cor e sentido aquilo que lia. Eu só lia as palavras. Ainda não desembaralhava seus sentidos.

Achei então que estava pronta e tinha que ir para a escola. Para utilizar a nova aquisição e ampliar meus poderes e assim chegar mais perto daquelas ações que invejava. Daqueles livros pesados de promessas secretas.

Assim começava a minha história de amor com a palavra escrita – o amor com a palavra falada começou antes de eu aprender a andar, aos nove meses de vida – ou é isso que me contam. E começava meu amor com os mistérios. Com as histórias. Com os livros. Com as pessoas. Com as pessoas nos livros e fora deles. Com as linguagens. Essa minha avidez voraz com tudo o que ainda não sei.

Amor e Ódio.

28 de junho de 2018

Hoje seria o aniversário de minha avó, se viva estivesse. Faria 109 anos. Morreu aos 87. Ela era descendente alemã. Nome de solteira Malburg.  Era uma baixinha forte e decidida. Tinha mania de nos bronquear em alemão. Fisionomicamente, minha mãe e minha irmã se parecem com ela. Minha mãe cada vez mais.  Segundo dizem, eu puxei a família do meu pai. Mas minha super tia querida, diz que no jeito de ser, sou muito parecida com a vó Ignes. Sempre gostei disso.

Hoje começo novamente um blog. Um pouco em homenagem a ela. Exatamente sobre o que vou escrever ainda não sei. Escolhi esse dia por ser o aniversário dela. Porque hoje faz exatamente 1 ano, 1 mês, e quatro dias que estou morando na Alemanha. Por causa dela, eu costumava sonhar em alemão. Quando acordava não entendia nada das falas do sonho. Mas por conta disso, sempre achei que o dia que resolvesse aprender o idioma, seria fácil. Tipo orgânico. Errei feio. Funcionou só para o Italiano.

Culpa minha, lógico. Adoro línguas. Sempre quis aprender o alemão. Meu primeiro escritor favorito foi Herman Hesse. Mentira, antes tinha os Irmãos Grimm e os contos de Andersen, e Shakespeare. Mas  na adolescência (aos 13 eu acho) li Siddhartha, e depois fui lendo tudo dele que podia encontrar.  Daí a idéia de aprender alemão para lê-lo no original. Mas devo confessar que sou preguiçosa e indisciplinada. Assim essa coisa de estudar valendo, com tenacidade, nunca foi meu caso. Admiro quem o faz.

Agora, no entanto,  é uma questão de vida. To morando aqui. Adoro falar. Tenho que aprender essa língua. Sem isso não posso trabalhar. Não posso viver comigo. Não sou burra, mas sempre fui muito acostumada a “pegar” as coisas muito rapidamente. E não sei porquê, quando me deparei com essa dificuldade, meio que criei uma barreira com a língua. Tá, isso pode também ter a ver com meus mecanismos de boicote, mas é estúpido de qualquer maneira.

Então começo esse blog, cujo título parafraseia o do livro do grande João Ubaldo Ribeiro, não por me achar nem de longe, próxima dele, mas para que me sirva de inspiração. E começo falando dessas dificuldades que encontro. Dos motivos por trás dos motivos. Das coincidências ou causalidades da vida. E da vida que vou levando aqui. Em Munique.

Que de resto é uma cidade linda, com um clima louco, com um parque maravilhoso e imenso, e outros menores não menos maravilhosos. Aqui  vou conhecendo pessoas de várias partes do mundo, com histórias variadas e motivos diversos para também aqui estar. E o aqui e agora não menos vário. Vamos.